quinta-feira, abril 23, 2026

Citricultura ganha duas variedades de laranja precoces e produtivas

Duas novas variedades de laranjeira-doce prometem trazer mais qualidade e praticidade para os citricultores. Com coloração intensa, sabor marcante e colheita mais cedo, as cultivares Kawatta e Majorca foram lançadas no início de junho, durante a 50ª edição da Expocitros, um dos maiores eventos da citricultura mundial. O desenvolvimento é fruto de uma parceria entre a Embrapa, o Instituto Agronômico (IAC), a Fundação Coopercitrus Credicitrus (FCC) e outras instituições do setor.

As novas laranjas se destacam por atender a uma das principais demandas do setor: ampliar a diversidade de variedades precoces, mantendo a produtividade e elevando a qualidade do suco — um desafio para a indústria, especialmente no segmento de suco pasteurizado não concentrado (NFC), que exige matéria-prima de alta qualidade.

De acordo com Eduardo Girardi, pesquisador da Embrapa Mandioca e Fruticultura, ambas as variedades oferecem boa produtividade mesmo sem irrigação, ultrapassando 30 toneladas por hectare, e podem ser cultivadas em diferentes regiões de São Paulo. Além disso, se adaptam bem aos principais porta-enxertos usados no estado, como limão Cravo, citrumelo Swingle e tangerina Sunki.

Qualidade e colheita antecipada

Originária do Suriname, a Kawatta chama atenção pela cor intensa da polpa. Já a Majorca, vinda da Flórida, mostrou altos níveis de vitamina C e também excelente desempenho em relação ao sabor e equilíbrio entre acidez e doçura. A maturação acontece entre maio e agosto, antes da maioria das variedades tradicionais, o que reduz riscos com seca e abre espaço para melhor planejamento da colheita.

Ambas têm entre 8 e 10 sementes e, apesar do foco no processamento industrial, também podem ser consumidas in natura. Os frutos oferecem maior concentração de sólidos solúveis, uma exigência para a produção de sucos de maior valor agregado.

Segundo a pesquisadora Camilla Pacheco, da Citrosuco, o lançamento dessas variedades é um passo importante para enfrentar os desafios do setor, como a baixa diversidade genética entre as cultivares precoces e os impactos de doenças como o greening (HLB). As novas laranjas são suscetíveis à doença, mas o manejo adequado pode garantir sua viabilidade nas lavouras.

Um longo trabalho de pesquisa

A trajetória de Kawatta e Majorca no Brasil começou décadas atrás. A Kawatta foi introduzida em 1969 e a Majorca no final dos anos 1980. Ambas passaram por processos de limpeza clonal e microenxertia antes de serem testadas por mais de 14 safras, em projetos liderados por universidades, institutos de pesquisa e empresas do setor. Os testes mostraram que as cultivares são adaptáveis a diferentes condições climáticas, desde o sul até o norte de São Paulo.

Segundo o engenheiro-agrônomo Luiz Gustavo Parolin, da FCC, um diferencial importante é que essas laranjas amadurecem um pouco depois da Hamlin — variedade precoce mais plantada no Brasil —, o que permite escalonar a colheita e aproveitar melhor os recursos da propriedade.

Próximos passos

A partir do segundo semestre de 2025, os viveiristas poderão ter acesso ao material propagativo das novas cultivares por meio da oferta de borbulhas fornecidas pelo IAC. A Embrapa, o CCSM/IAC e a FCC são co-mantenedores das variedades junto ao Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa).

Além dessas, outras cultivares estão em fase de avaliação e devem ser lançadas nos próximos anos, contribuindo para a renovação e fortalecimento da citricultura brasileira. Como lembra Marinês Bastianel, curadora do banco de germoplasma do IAC, os produtores estão cada vez mais abertos a novas opções, desde que entreguem frutos com qualidade superior.

Compromisso com a sustentabilidade

As novas cultivares estão alinhadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, em especial o de número 2: fome zero e agricultura sustentável. A Embrapa tem atuado fortemente para oferecer soluções que ajudem a agricultura brasileira a se tornar mais eficiente, resiliente e inovadora.

O lançamento de Kawatta e Majorca é um exemplo claro de como a ciência, o setor produtivo e a sustentabilidade podem andar juntos — e gerar frutos para todos.

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