sexta-feira, março 6, 2026

Embrapa lança duas variedades de mandioca

As cultivares BRS Ocauçu e BRS Boitatá se destacam por aliar alta produtividade no campo e elevado teor de amido

Duas novas variedades de mandioca desenvolvidas pela Embrapa prometem transformar a produção da raiz no Centro-Sul do Brasil. As cultivares BRS Ocauçu e BRS Boitatá se destacam por aliar alta produtividade no campo e elevado teor de amido – componente valorizado por indústrias alimentícias, de mineração e de petróleo.

A região Centro-Sul é responsável por 80% da produção brasileira de fécula (amido da mandioca) e foi justamente onde as duas variedades mais se destacaram. Avaliadas desde 2011 em uma ampla rede de testes, as cultivares demonstraram excelente desempenho tanto na colheita precoce (12 meses) quanto na tardia (18 a 24 meses).

Em Naviraí (MS), por exemplo, ambas superaram 33 toneladas por hectare no primeiro ciclo, enquanto a variedade padrão local produziu 13,2 t/ha. No segundo ciclo, os números chegaram a mais de 41 t/ha, frente a 25,27 t/ha da variedade convencional. No quesito produção de amido por hectare, a BRS Ocauçu e a BRS Boitatá registraram até três vezes mais amido do que o material usado como referência local.

Lançamento e validação em campo

O lançamento oficial ocorreu no Dia de Campo da Mandioca, em 2 de julho, promovido pela Copasul em Naviraí. O evento, que reúne produtores e especialistas de diversas regiões e até do exterior, marca o início da safra com a apresentação de novas tecnologias e práticas para aumentar a eficiência e sustentabilidade na produção.

As duas cultivares foram inicialmente registradas para cultivo em São Paulo e, neste ano, tiveram o uso recomendado também para Mato Grosso do Sul e Paraná. Segundo a Embrapa, elas vêm sendo testadas e aprovadas pelas principais indústrias de fécula e farinha da região.

Mais opções para o produtor

De acordo com o pesquisador Marco Antonio Rangel, da Embrapa Mandioca e Fruticultura, que atualmente atua no Ministério da Agricultura, a principal vantagem dessas variedades é justamente atender tanto os interesses da indústria quanto dos agricultores. “Quanto maior o teor de amido, maior o valor pago pela raiz. Mas, se a variedade for pouco produtiva, o produtor perde. O segredo é aliar os dois atributos”, explica.

As novas cultivares somam-se ao portfólio da Embrapa para a região, que já contava com a BRS CS 01 e a BRS 420, mais indicadas para colheita precoce. “A Ocauçu e a Boitatá permitem colheita tanto aos 12 quanto aos 24 meses, dando ao produtor liberdade de decidir de acordo com o mercado”, destaca Rangel.

Adaptação e diferenciais agronômicos

O pesquisador Rudiney Ringenberg, responsável pelos ensaios no campo avançado da Embrapa no Centro-Sul, reforça que as novas cultivares se adaptam a diferentes perfis de produtor. “Elas ampliam o leque de escolhas. O agricultor pode plantar uma parte da área com variedade precoce e outra com uma de ciclo mais longo, aguardando o melhor momento para colher”, explica.

Entre os diferenciais agronômicos, a BRS Boitatá apresenta casca branca, característica valorizada pelas farinheiras por evitar escurecimento do produto final. Já a BRS Ocauçu se destaca pela boa produtividade em solos de baixa fertilidade, como os arenosos típicos da região Centro-Sul.

Além disso, ambas possuem porte ereto e arquitetura favorável à mecanização, característica essencial em áreas com plantio em larga escala. Também apresentam boa cobertura do solo, reduzindo o crescimento de plantas daninhas e a necessidade de capinas.

Resistência a doenças e sustentabilidade

Segundo o pesquisador Vanderlei Santos, que coordenou o melhoramento genético das cultivares, os materiais foram selecionados com base em resistência às principais doenças da cultura, como bacteriose, antracnose e superalongamento – problema comum na região Centro-Sul.

As variedades também são adaptadas ao plantio direto, sistema conservacionista que mantém a palha de culturas anteriores na superfície do solo, ajudando a conservar nutrientes, reduzir erosão e aumentar a estabilidade produtiva.

Origem genética e validação técnica

As cultivares resultam de cruzamentos realizados em 2009 na Embrapa Mandioca e Fruticultura, em Cruz das Almas (BA), com base nos melhores materiais do Nordeste e do Centro-Sul. A partir de mais de 4 mil genótipos testados, os clones 2010 55-04 (BRS Ocauçu) e 2010 56-18 (BRS Boitatá) se destacaram e foram registrados em 2022. Em 2024, foram validados para novos estados.

Avaliação do setor produtivo

Segundo o engenheiro-agrônomo da Copasul Cleiton Zebalho, as novas variedades vêm sendo testadas desde 2022 em áreas de cooperados. “São materiais com grande potencial para dois ciclos, o que é uma demanda importante dos produtores. Até agora, também não houve registro de doenças, apenas ocorrência normal de pragas como a lagarta mandarová.”

Ele também destaca a boa adaptação ao plantio direto, essencial na região devido aos problemas com erosão. “A genética é um fator-chave para reduzir a lacuna de produtividade. Essas cultivares vêm para somar com alto desempenho.”

Garantia de qualidade e próximos passos

A Embrapa garante a identidade genética e a sanidade das variedades por meio da parceria com multiplicadores licenciados. No momento, a Copasul é a fornecedora oficial das manivas das novas cultivares, mas a expectativa é ampliar o número de parceiros ao longo do segundo semestre.

Além disso, o lançamento das variedades está alinhado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), em especial ao ODS 2, que busca erradicar a fome e promover uma agricultura mais produtiva e sustentável. A Embrapa integra a Rede ODS, dedicada a conectar ciência, inovação e políticas públicas para avançar nas metas da Agenda 2030 da ONU. (com informações Embrapa)

Foto: Embrapa

Receba as informações do site diáriamente.

Mais do Canal do Agro

Governo regulamenta regras de salvaguardas em acordos comerciais

Medida protege indústria brasileira em caso de excesso de...

Senado aprova acordo entre Mercosul e União Europeia

Texto ratificado pelos parlamentares conclui tramitação no Congresso O Senado...

IAT aplicou quase R$ 170 mil em multas durante a piracema no PR

O Instituto Água e Terra (IAT) divulgou nesta quarta-feira...

Arroz tem leve alta em fevereiro com oferta restrita

O mercado de arroz em casca no Rio Grande...

Café arábica recua em fevereiro, mas segue em nível elevado

O preço médio do café arábica encerrou fevereiro no...

PF prende Daniel Vorcaro em 3ª fase da Operação Compliance Zero

A terceira fase da Operação Compliance Zero foi deflagrada...

Simental Brasileiro: genética adaptada à realidade do campo

Originária de uma das linhagens europeias mais difundidas no...