terça-feira, junho 23, 2026

El Niño pode agravar crise do crédito rural

Especialistas alertam que perdas climáticas podem ampliar a necessidade de renegociação de financiamentos

A estimativa de 60% de probabilidade do El Niño se consolidar no segundo semestre de 2026, segundo nota técnica assinada por INPE, Inmet, Cemaden, Funceme e Censipam, acende um sinal de preocupação para o agronegócio brasileiro. O fenômeno climático chega em um momento delicado para o setor, que já acumula mais de R$ 800 bilhões em dívidas consideradas estressadas, segundo estimativas debatidas pela Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA). Para especialistas, caso as perdas de produtividade se confirmem, cresce também a tendência de aumento dos pedidos de prorrogação e renegociação das operações de crédito rural previstas na legislação.

O El Niño é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial e altera o regime de chuvas em diversas regiões do planeta. No Brasil, os efeitos costumam ser distintos entre as regiões. Enquanto o Sul registra precipitações acima da média, o Norte, Nordeste e parte do Centro-Oeste enfrentam redução das chuvas, veranicos e temperaturas mais elevadas. A expectativa é que seus efeitos se estendam até o início de 2027.

Os impactos esperados vão além da meteorologia. No Sul, o excesso de chuva pode comprometer a colheita de culturas como trigo, café, cana-de-açúcar e outras lavouras de inverno, além de favorecer doenças fúngicas e dificultar a entrada de máquinas nas propriedades. Já em importantes polos produtores de soja e milho, a irregularidade das chuvas durante o plantio pode comprometer o desenvolvimento inicial das lavouras, reduzindo produtividade e afetando diretamente a renda do produtor.

O momento é especialmente sensível porque o agronegócio já enfrenta uma combinação de fatores que pressionam sua capacidade financeira. Nos últimos anos, produtores conviveram com sucessivas perdas climáticas, queda no preço das commodities agrícolas, aumento dos custos de produção, juros elevados e maior restrição ao crédito.

Segundo o advogado Raphael Condado, especialista em Direito do Agronegócio, o produtor deve acompanhar o cenário climático com a mesma atenção dedicada ao planejamento financeiro da propriedade. “Existe uma preocupação real com os efeitos do El Niño, principalmente sobre culturas que podem sofrer perdas de produtividade e dificuldades na colheita. O produtor já vem de um período marcado por preços mais baixos das commodities, aumento dos custos de produção, diesel em patamares historicamente elevados e crédito mais caro. Se perceber que não terá fluxo de caixa suficiente para cumprir seus financiamentos em razão dos impactos climáticos, é importante saber que a legislação garante mecanismos de prorrogação das operações, com carência e prazos compatíveis com sua capacidade de pagamento”, explica.

Embora pouco conhecido por muitos produtores, esse direito está previsto no Manual de Crédito Rural (MCR), norma de cumprimento obrigatório por bancos e cooperativas de crédito. O regulamento permite a prorrogação das operações quando houver dificuldade temporária de pagamento decorrente de fatores como frustração de safra causada por eventos climáticos, desde que a situação seja devidamente comprovada. A medida busca preservar a atividade produtiva e evitar que dificuldades momentâneas resultem em inadimplência permanente.

Raphael Condado alerta ainda que nem toda renegociação realizada pelas instituições financeiras e cooperativas de crédito seguem as regras específicas do crédito rural. “Em alguns casos, produtores são direcionados para contratos bancários comuns, com encargos superiores aos previstos para operações rurais. Quando há substituição indevida do crédito rural por outro tipo de financiamento, pode existir desvio de finalidade, situação que pode ser questionada judicialmente para restabelecer as condições asseguradas pela legislação especial”, afirma.

A preocupação com o avanço do endividamento também alcança o sistema financeiro. Dados da Serasa Experian mostram que o agronegócio registrou 1.990 pedidos de recuperação judicial no ano passado, o maior volume da série histórica iniciada em 2021. O crescimento das recuperações judiciais e da inadimplência tende a tornar bancos e cooperativas mais cautelosos na concessão de novos financiamentos, reduzindo a oferta de crédito justamente em um setor que depende fortemente do financiamento para custear cada safra.

Foto: Pexels

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