quinta-feira, março 5, 2026

Análise: guerra comercial reconfigura mercado de grãos

A guerra comercial entre Estados Unidos e China voltou ao centro das atenções do agronegócio global. Em abril de 2025, as tarifas bilaterais atingiram os maiores patamares da história: 125% impostas pela China aos Estados Unidos e 145% pelos Estados Unidos à China, interrompendo praticamente todo o fluxo comercial entre as duas maiores economias do mundo. O embate, que envolve acusações de manipulação cambial, barreiras não tarifárias e disputas por domínio geopolítico, tem repercussões diretas na precificação global de grãos — e o Brasil surge como uma alternativa estratégica e urgente para os compradores chineses .

Na prática, a disputa impulsionou a valorização dos prêmios de exportação no Brasil, aumentou a demanda por soja brasileira  e reacendeu o debate sobre capacidade logística e gestão de risco. Ainda que o momento aparente favorecimento ao produtor brasileiro, o cenário segue extremamente volátil e exige decisões bem fundamentadas.

“O Brasil foi chamado a cumprir um papel central. A China não apenas retaliou as tarifas dos EUA, como também intensificou as compras no Brasil, com destaque para a aquisição de pelo menos 40 navios de soja entre maio e julho”, explica Felipe Jordy, gerente de inteligência e estratégia da Biond Agro.

Soja brasileira no foco, mas com limites

Com os estoques de soja  e cobertura nas mínimas dos últimos 5 anos, o redirecionamento das compras favoreceu o Brasil — mas não sem riscos. Parte da demanda de curto prazo já foi absorvida, o que significa que a força compradora chinesa pode diminuir nos próximos meses, principalmente se houver recuo na tensão geopolítica ou reposicionamento da oferta global, o gigante asiático com essas novas compras já estão comprometidos em pelo ao menos 70% de um programa para safra 24/25 de 110 milhões de toneladas

“Essa é uma janela que pode se fechar rapidamente. Os embarques de abril a junho já estavam parcialmente comprometidos, e agora com essa nova rodada de compras, a cobertura da China se estende ainda mais”, alerta Jordy.

Além disso, há pressão sobre a infraestrutura de escoamento e um descompasso entre a valorização dos prêmios e o desempenho da Bolsa de Chicago (CBOT), que segue pressionada pela possibilidade de aumento da área plantada nos EUA e estoques elevados, especialmente de soja.

Gestão de risco em primeiro plano

O cenário atual é guiado por expectativa de fluxo, não por volume consolidado. Os prêmios nos portos brasileiros atingiram picos acima de US$ 1,00 por bushel, mas estão sujeitos a reversões rápidas caso o conflito entre EUA e China se estabilize.

“Esse descolamento entre prêmios e bolsa é típico de um momento especulativo e que rapidamente foi corrigido com uma tomada de volume da China e ainda uma ampla oferta no Brasil. A oportunidade existe, mas é sensível ao noticiário e à diplomacia”, reforça Jordy.

Para os produtores, o momento exige disciplina comercial. Estratégias com metas definidas, proteção de margens e contratos alinhados à realidade logística tornam-se diferenciais importantes para sustentar a rentabilidade em meio à instabilidade.

“O ano de 2025 já trouxe desafios adicionais, com clima irregular, alta nos custos logísticos e agora a guerra comercial. A volatilidade é parte do jogo, mas a previsibilidade da gestão é o que transforma um bom ano em um excelente resultado”, conclui Jordy.

Foto: Cláudio Neves/Portos do Paraná

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