quinta-feira, março 5, 2026

Commodities: o que esperar em 2026

Em 2026, o mercado global seguirá atento às políticas tarifárias do governo americano, com potencial para redesenhar fluxos comerciais, especialmente na relação EUA-China, que continuará sendo o epicentro das tensões comerciais e geopolíticas. Em mercados emergentes, eleições podem alterar dinâmicas regionais. No Brasil, o pleito presidencial e legislativo em outubro tende a ser o principal vetor de volatilidade. Colômbia e Portugal também realizam eleições importantes.
 

No campo monetário, bancos centrais buscarão equilíbrio entre controle da inflação e estímulo ao crescimento. Com Fed e BCE próximos de estabilizar taxas após cortes em 2025, o Brasil pode iniciar 2026 com espaço para reduzir a Selic, projetada para encerrar o ano em torno de 12%, condicionada à ancoragem das expectativas de inflação, segundo análises da Hedgepoint Global Markets no lançamento do relatório anual Mercado de Commodities: Retrospectiva 2025 e Perspectivas 2026.

“Esse pano de fundo macroeconômico e geopolítico será determinante para os mercados de commodities, que também enfrentam desafios próprios ligados à oferta, demanda e clima”, ressalta Thais Italiani, gerente de Inteligência de Mercado na Hedgepoint.
 

A seguir, o relatório detalha como cada setor chega a 2026 e quais fatores devem orientar a gestão de riscos, preços e estratégias:
Açúcar

2025 – Um ano baixista para o açúcar

A oferta foi abundante, com Centro-Sul do Brasil registrando bons resultados de moagem e mix açucareiro elevado, resultando em produção robusta. No Hemisfério Norte, as perspectivas positivas de produção reforçaram o sentimento de baixa.

2026 – O que vai ditar o rumo dos preços?

  • Clima no desenvolvimento da safra 26/27 no Brasil será determinante para moagem e qualidade.
  • Paridade e demanda de etanol no Brasil podem alterar o mix das usinas, elevando ou reduzindo a produção de açúcar conforme a rentabilidade.
  • Colheita 25/26 no Hemisfério Norte e, sobretudo, a decisão da Índia sobre cotas de exportação serão cruciais para os fluxos comerciais, especialmente no início do ano.

“Entramos 2026 com um balanço confortável, mas altamente sensível ao mix no Brasil e às decisões da Índia. Uma leitura fina de paridade etanol–açúcar será essencial para mapear preços e janelas de hedge”, diz Carlos Murilo Mello, Head de Açúcar e Etanol Hedgepoint.

Cacau

2025 – Outro ano marcado por forte volatilidade

A oferta global incerta e a desaceleração da demanda sustentaram a volatilidade. A safra 24/25 sofreu com restrições de produção na África Ocidental, associadas a clima adverso e problemas estruturais. Menor disponibilidade e preços elevados reduziram a moagem, principal indicador de consumo.

2026 – Quais são os pontos de atenção?

  • Apesar da perspectiva de superávit em 25/26, o clima na África Ocidental continuará crítico – períodos sem chuva podem afetar volume e qualidade entre o fim da safra principal e o início da safra intermediária (abril/2026), potencialmente sustentando preços.
  • Do lado da demanda, mesmo após correções, os preços historicamente altos tendem a limitar o processamento nas principais regiões. O mercado aguarda os dados do 4º tri de 2025 para aferir o impacto das correções de preço sobre a moagem.

Na avaliação de Carolina França, analista de Inteligência de Mercado da Hedgepoint, o cacau permanece um mercado muito sensível. Melhora de produção em África Ocidental e Equador aponta para superávit, mas o clima e a elasticidade da demanda ao preço exigem cautela.

Café

  1. – Um ano desafiador e dinâmico para o mercado de café

Volatilidade extrema, com recordes de preço no 1º semestre por conta de menor produção no Brasil e estoques globais apertados. As tarifas dos EUA em julho adicionaram ruído. No fim do ano, a atenção se voltou à safra 26/27 do Brasil, potencial determinante para os preços em 2026.

2026 – Vetores de preço e oferta

  • A partir de janeiro, a chegada ao mercado da safra 25/26 de América Central, Oeste Africano, Vietnã e Colômbia tende a aumentar a oferta, permitindo leve recomposição dos estoques e trazendo possível pressão nas cotações.
  • O mercado seguirá atento ao ritmo de comercialização do Brasil e a eventuais desafios na safra 26/27 (clima, logística, custos), fatores que podem adicionar volatilidade.
  • Colheita brasileira 26/27 (meados de 2026): provável aumento de produção amplia estoques e tende a trazer pressão baixista.

De acordo com Laleska Moda, analista de Inteligência de Mercado da Hedgepoint, a recomposição de estoques no início do ano não elimina a volatilidade. “Brasil continua sendo o pêndulo, e qualquer surpresa climática pode reprecificar rapidamente a curva”, afirma.

Complexo Soja (grão, farelo e óleo)

2025 – Guerra comercial, recorde na América do Sul e redução de área nos EUA

Mercado lateralizado por forças opostas de oferta e demanda. Safra recorde na América do Sul contrastou com tendência de safra menor nos EUA. A menor demanda pela soja americana durante a guerra comercial

competiu com o crescimento do esmagamento e a perspectiva de aumento da mistura de biocombustíveis nos EUA. Trégua EUA-China deu fôlego aos preços no fim do ano.

2026 – Quatro pontos de atenção

  • Quanto a China comprará de soja norte-americana na temporada 25/26, após o compromisso de compras de pelo menos 25 milhões de toneladas ao longo do ano?
  • Biodiesel nos EUA – indefinição em 2025 empurra efeitos para 2026, com impacto estrutural sobre óleos vegetais e farelo.
  • Oferta sul-americana – clima irregular em momentos de plantio/desenvolvimento em Brasil e Argentina gera dúvidas sobre o potencial real de produção. Por ora, a tendência de nova safra recorde se mantém, mas La Niña é incerto e decisivo.
  • Área 26/27 nos EUA – se a recuperação de preços da soja se sustentar, pode haver transferências de área de milho para soja; atenção ao plantio a partir de abril.

“A dinâmica do complexo soja em 2026 vai depender especialmente de três engrenagens: China, biodiesel nos EUA e clima na América do Sul e EUA. O timing de cada uma pode trazer um ambiente diferente da lateralidade registrada na maior parte de 2025”, diz Luiz Roque, coordenador de Inteligência de Mercado da Hedgepoint.

Milho e Trigo

2025 – Produções crescentes e preços pressionados

No milho, os EUA colheram a

maior safra da história, fruto de

aumento de área e clima

favorável. As exportações

superaram expectativas pela

competitividade de preço. No

trigo, grandes produtores

ampliaram produção, elevando a

oferta global a níveis recordes.

2026 – Pontos de inflexão

  • Milho – América do Sul (25/26): se o clima ajudar, Brasil Argentina podem elevar produção; La Niña traz risco, sobretudo para a safra argentina (jan–fev).
  • Brasil – milho safrinha: atrasos no plantio da soja (4º tri/2025) podem postergar o milho de inverno (1º tri/2026), elevando risco climático. Ainda assim, há tendência de aumento de área, potencialmente resultando em nova grande produção. Margens apertadas do algodão podem levar a migrações de áreas para o milho na segunda safra; demanda por etanol de milho ganha tração com novas plantas em 2026.
  • EUA – decisão de área 26/27: a relação de preços milho vs. soja parece favorecer soja. Possível redução de área de milho dependerá do comportamento de preços no 1º tri/2026. A demanda forte por milho americano pode impedir cortes maiores.
  • Para o Trigo, as dúvidas recaem sobre o clima para o desenvolvimento da safra de inverno do Hemisfério Norte, com a transição entre o fenômeno La Niña e um padrão neutro devendo ocorrer a partir de fevereiro/março.

“O binômio clima–área segue no comando. O avanço do etanol de milho no Brasil adiciona um novo piso de demanda, enquanto o mix de culturas nos EUA será decidido pelo pulso de preços até março, explica Luiz Roque.

Óleo de Palma

2025 – Produção em alta, consumo em queda

Indonésia e Malásia registraram grandes produções; China e Índia reduziram importações, pressionando os preços e invertendo o spread frente ao óleo de soja..

2026 – Três vetores críticos

  • China e Índia devem reacelerar importações, dando suporte aos preços.
  • Indonésia pode implementar B50 (mistura de biodiesel a 50%), elevando consumo doméstico e reduzindo oferta exportável.
  • Produções maiores na Indonésia e na Malásia seguem como limitadores. La Niña com chuvas acima da média no Sudeste Asiático pode atrapalhar logística até fevereiro, afetando prêmios e disponibilidade.

Geopolítica: o risco que precifica logística e energia

  • Em 2025, tensões voltaram a ganhar destaque e adicionaram volatilidade ao petróleo. O conflito entre Israel e Irã elevou o risco de escalada militar para além do Oriente Médio.
  • No leste europeu, a continuidade do conflito Rússia–Ucrânia reabriu o debate sobre financiamento europeu ao lado ucraniano, enquanto os EUA recuaram na busca por um acordo definitivo.
  • Em 2026, o mapa de risco permanece vivo, com custos logísticos, prêmios de risco e fluxos alternativos no radar de tradings e indústrias. (Texto: Divulgação)

Foto: Claudio Neves/Portos do Paraná

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