sexta-feira, março 6, 2026

Mercado de caçambas enfrenta sucateamento e favorece descarte clandestino de entulho

Infelizmente boa parte desse lixo tem ido para na zona rural, às margens de estradas e em propriedades

O serviço de caçamba estacionária, essencial para a gestão dos resíduos da construção e demolição, enfrenta uma crise silenciosa. Segundo a Pesquisa Setorial 2024 da Abrecon, o custo médio de uma caçamba no Brasil varia de R$ 260,00 a R$ 350,00, dependendo do porte da cidade — valores que, em muitos casos, não cobrem nem os custos básicos de operação legal. O resultado é alarmante: caçambas operando fora da legalidade e contribuindo diretamente para o surgimento de lixões urbanos e descartes clandestinos de entulho, inclusive em estradas rurais.

Além dos preços aviltados, os transportadores enfrentam também a invisibilidade dentro da cadeia da construção. Um dos principais reflexos disso é a falta de emissão dos documentos obrigatórios que comprovam a destinação do entulho, como o Controle de Transporte de Resíduos (CTR). Segundo a Pesquisa Setorial 2024 da Abrecon, a maioria dos estados das regiões Sul, Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste registra mais de 74% de transportadores que afirmam fornecer o CTR. Por outro lado, a região Norte apresenta apenas 44%, com destaque negativo para Pará, Piauí e Acre, onde nenhum dos respondentes declarou emitir o documento. Em Mato Grosso, 80% dos entrevistados também afirmaram que não entregam o CTR. A pesquisa revela ainda que, em nível nacional, quanto menor o porte da cidade, maior a probabilidade de o transportador não emitir o documento, o que reforça a correlação entre fiscalização deficiente, baixa adesão a políticas públicas e informalidade no setor.

Os maiores problemas relatados pelos transportadores são o entulho excedendo a borda da caçamba (31%) e o vandalismo das caixas (19%), exatamente como já apontado na edição anterior da pesquisa, em 2022. Outros desafios como manutenção de caminhões (5%) e restrições de tráfego (9%) perderam força nesta edição, indicando uma mudança na percepção de urgências operacionais — em 2022, esses dois itens somavam 30% das menções.

Mesmo com tantas dificuldades, o setor se adapta. Os transportadores de RCD (Resíduos da Construção e Demolição) afirmam que os principais canais de contato com clientes são as redes sociais (47%) e o Google/telefone (35%). Quanto ao uso de tecnologia nas operações, 44% utilizam aplicativos de mensagens, 33% GPS via aplicativo, e 21% rastreamento nos veículos. O uso de câmeras internas ainda é quase inexistente: apenas 1% afirmou utilizar o recurso. “O que vemos é um setor que presta um serviço essencial e indispensável, mas é constantemente negligenciado pelas construtoras e pelo poder público. Isso não apenas inviabiliza o negócio de quem atua dentro da legalidade, como também perpetua práticas criminosas de descarte irregular e clandestino”, afirma Rafael Teixeira, especialista em reciclagem e logística de resíduos da Abrecon.

O coordenador da Abrecon, Levi Torres, alerta para os impactos sociais da falta de controle dos resíduos da construção: há uma ideia de que o entulho é um resíduo inofensivo, porém, as construtoras não fazem o gerenciamento de seus resíduos em virtude de valores muito baixos para transportar o resíduo e, em grande parte do Brasil, custo zero para destinar, uma vez que grande parte dos resíduos da construção vão parar nos lixões. O resultado é o subsídio financeiro para a destinação dos resíduos em forma de serviços públicos de remoção de pontos viciados e remediação de áreas contaminadas, que acabam sendo pagos por todos os cidadãos.

A entidade alerta que, sem o reconhecimento da importância dos transportadores e sem fiscalização efetiva, será impossível alcançar uma cadeia sustentável de gestão de resíduos. Enquanto isso, cerca de 64 milhões de toneladas de entulho seguem sendo despejadas irregularmente em áreas urbanas todos os anos, alimentando um ciclo de degradação ambiental que inclui contaminação do solo, proliferação de vetores e formação de lixões clandestinos. (Divulgação)

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