Entre os brasileiros, segmento movimentou US$ 6,4 milhões no ano passado e deve chegar a 2031 com faturamento estimado de US$ 11,5 milhões, aponta relatório; China se apresenta como um panorama promissor

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O consumo global de café se reinventa, abrindo espaço para novas possibilidades e mercados, impulsionados por transformações no comportamento dos consumidores. Uma dessas tendências em alta é o café pronto para beber, ou RTD, na sigla em inglês para ready to drink. São bebidas prontas para o consumo, em latas ou garrafas, que dispensam preparo. No Brasil, esse mercado movimentou US$ 6,4 milhões no ano passado e deve chegar a 2031 com faturamento estimado de US$ 11,5 milhões, alta de 80%, segundo relatório da consultoria internacional Mordor Intelligence.
O incremento de um novo mercado é uma notícia a ser comemorada por produtores brasileiros no Dia Internacional do Café, celebrado em 1º de outubro. O Brasil lidera com folga o mercado mundial, é o maior produtor e o maior exportador de café. O segmento de bebidas prontas para consumo abre grande e boas perspectivas para o cafeicultor nacional.
“Durante muito tempo, o Brasil construiu sua liderança produzindo o café que o mundo compra. O próximo salto é produzir também as experiências que o consumidor do futuro quer beber. O futuro está em transformar cada saca em novas ocasiões de consumo, novos produtos e mais valor, e o RTD é uma das portas de entrada para essa mudança”, afirma o head da Ascenza Brasil, Hugo Centurion.
Para este ano, a alta prevista do mercado brasileiro de café RTD é de 10%, com vendas estimadas em US$ 7,1 milhões, aponta a consultoria Mordor. Segundo o relatório, o mercado de café pronto para beber no Brasil terá uma taxa de crescimento anual composta (CAGR) de 10,18% de 2026 a 2031.
Se no Brasil esse mercado cresce com constância, os números globais também impressionam. Segundo a Mordor, o mercado mundial de café pronto para beber foi avaliado em US$ 24,83 bilhões em 2025, deve chegar a US$ 26,2 bilhões este ano e a US$ 34,2 bilhões em 2031, aumento de 30% em 2031 em relação a 2026 e de 37,6% comparando com o ano passado. A taxa de crescimento anual composta (CAGR) será de 7,52% nesse período, conforme a consultoria.
O crescimento do setor, avalia a Mordor, é impulsionado pela crescente demanda por conveniência, pela popularidade cada vez maior de produtos premium de cold brew e pelas formulações funcionais que se alinham às mudanças nas preferências do consumidor. A consultoria aponta que a urbanização influencia os padrões de consumo em movimento, enquanto um foco maior em ingredientes saudáveis incentiva os consumidores a escolherem produtos de qualidade.
“O consumidor escolhe conveniência sem abrir mão de qualidade, saúde e experiência. É essa combinação que transforma o café em estilo de vida, criando novas possibilidades de valor para toda a cadeia”, diz Centurion. De acordo com o relatório, a bebida pronta para consumo obtém melhores valores, absorvendo eventuais flutuações no custo do grão de café e impulsionando o crescimento do mercado. As novas opções de consumo cativam consumidores principalmente em regiões como a Ásia-Pacífico e a América do Norte.
Potencial chinês
Nessa região, a China tem um grande potencial para os exportadores brasileiros. As vendas de café brasileiro para o mercado chinês aumentaram quase quatro vezes e meia em apenas cinco anos, indica o Conselho de Exportadores de Café do Brasil (Cecafé). Em 2020, os cafeicultores brasileiros enviaram 201,6 mil sacas de 60 quilos de café para o gigante asiático e no ano passado foram 1,1 milhão de sacas, 17% a mais que em 2024, quando o volume somou 939,7 mil sacas.
De acordo com a consultoria Ken Research, o mercado de café na China, avaliado em US$ 51,9 bilhões em 2025, está crescendo a uma taxa composta anual (CAGR) de 10,6%, com previsão de atingir US$ 95 bilhões em 2031. A consultoria informa que que o consumo individual da bebida no país aumentou cerca de 70% em um intervalo de dois anos, de 17 xícaras por pessoa ao ano em 2023 para 29 xícaras por pessoa no ano passado.

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Estilo de vida
A China sempre foi conhecida como berço do chá, mas o café vem conquistando o paladar de jovens porque representa um estilo de vida urbano e moderno. Os maiores consumidores de café no gigante asiático são pessoas entre 20 e 40 anos. A popularidade da bebida no mercado chinês trouxe na esteira também o interesse pela bebida pronta para consumo. Segundo a Mordor, o segmento RTD vai movimentar este ano US$ 1,5 bilhão de dólares, com previsão de chegar a US$ 1,7 bilhão até 2031, alta de 13% e com uma taxa de crescimento de 2,21% ao ano.
Embora os números pareçam mais conservadores, o gigante asiático tem grande potencial. O Leste da China (Xangai e Pequim) detém 42,70% desse mercado. “O mercado chinês representa uma mudança de eixo no consumo global. O Brasil tem diante de si a oportunidade de disputar relevância na cultura de consumo”, comenta o head da Ascenza.
De acordo com a Mordor, o fato de o café pronto ser uma bebida natural, que foge da artificialidade de opções como refrigerantes ou sucos artificiais, contribui para ampliar o interesse por esse mercado. As marcas investem nesse apelo para garantir a fidelidade dos consumidores, equilibrando o prazer de consumir um produto sofisticado e saboroso à competitividade de preços. A bebida pronta facilita a rotina das apressadas novas gerações, que valorizam conveniência e rapidez.
O uso de ingredientes funcionais, como proteína, substâncias naturais que se acredita ajudam o organismo a se adaptar ao estresse (adaptógenos) e compostos que podem melhorar a função cognitiva (nootrópicos), influenciam ainda mais o consumo do café pronto para beber entre as novas gerações. Experiências que aumentam as fronteiras da bebida para outros níveis e que consolidam o café como uma das bebidas preferidas e mais consumidas do mundo, atrás apenas do chá. Para o Brasil, maior produtor mundial, essa expansão representa um grande negócio.

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Dentro da porteira
Para o produtor e a agroindústria nacional, o caminho para atender ao mercado chinês e aos novos comportamentos de consumo passa por aumento de produtividade, qualidade, diferenciação, rastreabilidade, sustentabilidade e regularidade de fornecimento.
“O mercado chinês é uma oportunidade relevante, mas a estratégia deve considerar o perfil de um consumidor que está descobrindo novas formas de consumir café. Isso significa produzir cafés capazes de atender a diferentes faixas de preço e preferências, fortalecer marcas e origens, participar de canais especializados e trabalhar em conjunto com cooperativas, exportadores e indústria para transformar a origem brasileira em valor percebido pelo consumidor”, afirma o head da Ascenza Brasil. .
A consolidação da marca do café brasileiro na China também pode ocorrer através de parcerias com grandes redes locais de cafeterias e oferta de microlotes certificados. O campo precisa estar preparado para a oferta de matéria-prima focada em café pronto para beber, garantindo produtos estáveis para os processos de extração a frio (cold brew) e industrialização em escala.
“O café já é uma das grandes forças do agro brasileiro, mas podemos produzir mais, conquistar novos mercados e agregar muito mais valor. Não existe crescimento sustentável da cafeicultura sem proteção. O clima pode mudar, a pressão de pragas e doenças pode aumentar e o mercado pode exigir cada vez mais qualidade, mas o produtor precisa ter ferramentas para proteger aquilo que levou anos para construir. O potencial de produzir mais se transforma em realidade quando conseguimos preservar o que está dentro da porteira”, alega Centurion
Para fora da porteira, a agroindústria nacional tem uma grande abertura para apostar na produção de blends, cafés com leite, bebidas funcionais, embalagens individuais e tecnologias que preservem sabor e qualidade, criando produtos adequados ao consumo rápido e aos novos hábitos.
“O Brasil ainda exporta majoritariamente café em grão. O desafio é capturar uma parcela maior do valor dentro do próprio país, vendendo ao mundo produtos brasileiros à base de café, com marca, conveniência, tecnologia e maior valor agregado”, comenta Centurion. Ele explica que, com isso, a agroindústria brasileira absorve maiores margens financeiras, reduz a dependência das oscilações das cotações de commodities e posiciona o Brasil como um polo fornecedor de soluções prontas para o consumo global.




