sexta-feira, outubro 2, 2026

Debate cancelado expõe riscos: o protagonismo precisa continuar sendo do eleitor

O cancelamento do debate presidencial que seria realizado pela Globo nesta quinta-feira (1º) representa um episódio preocupante para a democracia brasileira. Não apenas pela ausência do atual presidente e candidato a reeleição Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mas também pelas decisões judiciais tomadas às vésperas da transmissão, alterando regras que haviam sido previamente estabelecidas e aceitas pelas próprias candidaturas.

Debates eleitorais têm uma função essencial em uma democracia: permitir que o eleitor compare candidatos, questione propostas e avalie posições diante dos principais problemas do país. Quando um candidato deixa de participar, especialmente aquele que ocupa a Presidência da República e disputa a própria reeleição, perde-se uma oportunidade importante de confronto público de ideias.

A ausência de Lula poderia, naturalmente, ser registrada pelos demais candidatos. A regra previamente acordada previa que o púlpito destinado ao candidato ausente permanecesse no cenário e que os concorrentes pudessem formular perguntas que seriam dirigidas a ele. Era uma forma legítima de demonstrar ao eleitor quem compareceu e quem decidiu não participar.

Mas a decisão judicial que impediu justamente esse procedimento criou uma situação ainda mais controversa. Ao determinar que o púlpito com o nome de Lula não fosse utilizado e que perguntas não pudessem ser formuladas ao candidato ausente, a Justiça acabou interferindo diretamente na dinâmica de um debate que já possuía regras previamente acordadas.

O problema não está apenas nesta decisão específica. O episódio revela uma questão muito maior: até onde pode ir a Justiça Eleitoral e o Supremo Tribunal Federal na definição das regras de um debate organizado por uma emissora de televisão?

É legítimo que a Justiça fiscalize o cumprimento da legislação eleitoral, garanta igualdade entre candidaturas e impeça abusos. O que merece discussão é quando decisões judiciais, especialmente tomadas horas antes de um evento, passam a modificar regras previamente estabelecidas entre os próprios participantes.

A insegurança jurídica é ruim para todos. É ruim para as emissoras, que precisam organizar eventos complexos; é ruim para os candidatos, que passam a não saber quais regras efetivamente estarão valendo; e, principalmente, é ruim para o eleitor, que acaba privado do confronto de ideias.

O episódio envolvendo a participação de outros candidatos reforça essa preocupação. Segundo as informações divulgadas, diferentes decisões judiciais alteraram, em momentos distintos, a composição dos participantes do debate. O resultado foi uma situação em que as regras foram modificadas poucas horas antes da transmissão.

Uma democracia madura precisa de instituições fortes, mas também precisa de limites claros para a atuação de cada instituição. A Justiça deve garantir o cumprimento da lei, não substituir organizadores, partidos e candidatos na construção das regras de um debate político.

Também é preciso cobrar responsabilidade dos próprios candidatos. Se um candidato decide não comparecer a um debate, precisa estar preparado para explicar essa escolha ao eleitor. O cidadão tem o direito de perguntar: por que não foi? O que havia para ser debatido? Quais perguntas não foram respondidas?

Em uma eleição presidencial, fugir do confronto público não deveria ser tratado como algo irrelevante. O eleitor brasileiro merece ouvir candidatos falando diretamente sobre economia, segurança, saúde, educação, impostos, corrupção, contas públicas e o futuro do país.

Da mesma forma, decisões judiciais que interferem diretamente na liberdade editorial de uma emissora precisam ser examinadas com extremo cuidado. Liberdade de imprensa não significa liberdade absoluta, mas também não pode ser relativizada sempre que uma decisão editorial desagradar a uma candidatura ou a um grupo político.

O cancelamento do debate deveria servir, portanto, como um alerta. Democracia não é apenas votar. É também garantir espaço para o contraditório, liberdade para perguntar, liberdade para responder e liberdade para o eleitor comparar.

Quando um candidato não comparece, o eleitor deve saber disso. Quando uma emissora estabelece regras previamente e elas são alteradas por decisões judiciais de última hora, a sociedade também tem o direito de questionar.

O Brasil não pode transformar a Justiça em protagonista permanente do processo eleitoral. O protagonismo precisa continuar sendo do eleitor.

É ele quem deve decidir, ouvir, comparar e julgar os candidatos nas urnas.

Confira na íntegra o texto emitido pela Rede Globo sobre o cancelamento do debate: https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2026/noticia/2026/10/01/globo-cancela-debate-com-candidatos-a-presidencia-da-republica.ghtml

Foto: Globo/Manoella Mello (reprodução)

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