quarta-feira, agosto 26, 2026

Déficit de 2,5 GW na irrigação: como o Agro usa energia solar e baterias para blindar custos

Eletrificação das operações e déficit de capacidade impulsionam a busca por soluções para aumentar a eficiência no campo

Com um déficit de 2,5 GW já instalado na agricultura irrigada — volume que pode saltar para 4,2 GW até 2034 segundo a ABSAE —, o agronegócio brasileiro vive uma corrida contra o tempo. O impacto é direto no bolso: são mais de R$ 2,1 bilhões gastos anualmente apenas em eletricidade para irrigação. Diante dessa pressão sobre a produtividade, a geração solar aliada ao armazenamento em baterias deixou de ser um diferencial sustentável para se tornar a resposta estratégica definitiva para a previsibilidade de custos no campo.

Para Filipe Cardoso, CEO da EletroBidu, referência nacional em soluções de energia solar, o setor atravessa um amadurecimento na forma como encara o insumo energético. “Estamos presenciando a transição da energia como um custo operacional inevitável para a energia como gestão de risco. Em um agronegócio hiper-conectado e automatizado, garantir a própria fonte de energia e sua estabilidade é a única forma de blindar a operação contra a volatilidade das tarifas e a precariedade da rede em áreas remotas”, pontua.

A geração própria de energia solar pode ajudar a reduzir despesas em atividades como irrigação, ordenha, climatização de granjas, refrigeração e outras operações de consumo contínuo ou elevado. Além da redução da conta de luz, o sistema pode contribuir para substituir parte de uma despesa sujeita a reajustes tarifários por um investimento com custo mais previsível ao longo do tempo.

Sobrecarga também afeta cenário estadual

A pressão por eletricidade também aparece em São Paulo. Estudo da Unesp e do Instituto Federal de São Paulo (IFSP), com base em dados da Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (SEMIL), mostra que o consumo de eletricidade do setor agropecuário paulista passou de 2.880 GWh em 2012 para 3.799 GWh em 2021, alta de cerca de 32%. O levantamento aponta ainda que, entre 2017 e 2022, a eletricidade se tornou a principal fonte de energia utilizada pelo setor no estado, superando o óleo diesel.

Neste cenário, a EletroBidu surge como um parceiro do agronegócio brasileiro. Com mais de 30 anos de experiência, um exemplo é o projeto desenvolvido para o Sítio Novo Mundo, em Ibiúna (SP), que conta com 511 módulos fotovoltaicos e geração média de 28 mil kWh por mês. Segundo a empresa, a instalação proporciona uma economia anual estimada em R$ 336 mil.

O acesso a linhas de crédito rural também pode facilitar a adoção dessas tecnologias. O Plano Safra 2026/2027, por exemplo, prevê instrumentos de financiamento para sistemas de geração e armazenamento de energia renovável, reforçando o papel da infraestrutura energética na redução de custos e no aumento da segurança das propriedades rurais.

Baterias ampliam possibilidades

Além da geração solar, os sistemas de armazenamento de energia por baterias (BESS, na sigla em inglês) começam a ampliar as alternativas de gestão energética no campo. Segundo a consultoria Greener, o custo de um sistema de 500 kW/1.000 kWh caiu 53% entre 2020 e 2025, favorecendo novas aplicações da tecnologia.

No agronegócio, as baterias podem funcionar como fonte de energia de reserva para atividades críticas, como câmaras frias, incubadoras e sistemas de ordenha, além de armazenar excedentes da geração solar para utilização posterior. Dependendo do perfil da propriedade, também podem contribuir para reduzir a necessidade de acionamento de geradores a diesel e aumentar a flexibilidade do consumo.

“Para o produtor, a bateria agrega uma camada adicional de segurança e gestão. Ela permite armazenar energia quando há disponibilidade e utilizá-la no momento mais adequado para a operação. Com a queda dos custos da tecnologia, essas aplicações começam a fazer mais sentido econômico, especialmente em atividades nas quais uma interrupção de energia pode gerar perdas relevantes”, afirma Filipe Cardoso.

A combinação entre geração solar e armazenamento acompanha uma transformação mais ampla na forma como o agronegócio trata a energia. Mais do que uma despesa operacional, a eletricidade passa a ser considerada um elemento estratégico para a continuidade das atividades, a expansão da produção e a competitividade.

“O armazenamento ganha espaço no agronegócio em um momento de convergência entre necessidade e oportunidade. De um lado, cresce a demanda por energia para irrigação e eletrificação das operações; de outro, a rápida redução dos custos das baterias torna essa solução cada vez mais acessível. O resultado é uma tecnologia que aumenta a competitividade do produtor e fortalece a segurança energética no campo”, afirma Fabio Lima, diretor-executivo da ABSAE.

A tendência é que a gestão da energia ganhe cada vez mais espaço nas decisões estratégicas do agronegócio, acompanhando a eletrificação das atividades e a necessidade de produzir mais com eficiência, segurança e previsibilidade de custos.

Foto: Divulgação

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