Tecnologias de biologia molecular permitem identificar patógenos, avaliar a saúde do solo e otimizar o potencial produtivo antes mesmo do plantio
Antes de as plantadeiras entrarem no campo, os testes moleculares podem complementar as análises químico-físicas do solo e revelar informações importantes para o planejamento da safra de soja. Elas fornecem informações precisas sobre a microbiologia, a sanidade e o potencial produtivo da área antes da semeadura, permitindo decisões mais assertivas sobre inoculação, manejo biológico, correção do solo e prevenção de doenças.
Os testes moleculares permitem uma compreensão mais profunda do ambiente produtivo, contribuindo para decisões estratégicas que impactam diretamente a produtividade, a sustentabilidade e a rentabilidade da lavoura. Por meio de técnicas de qPCR (Reação em Cadeia da Polimerase em Tempo Real) é possível detectar e quantificar a presença de fungos e nematoides antes mesmo da manifestação de sintomas nas plantas. Em uma cadeia que projeta colher 180,6 milhões de toneladas na safra 2026/27, esse cuidado contribui para um manejo mais preciso desde o início do ciclo produtivo.
“Antes do plantio, é importante conhecer as condições do solo, que podem abrigar diferentes patógenos. Quando a semente germina e a planta começa a se desenvolver, esses organismos encontram condições favoráveis para se multiplicarem e podem comprometer a lavoura. A análise antecipada ajuda o produtor a selecionar cultivares mais adequadas, definir o melhor bioinsumos para o tratamento das sementes e tomar medidas preventivas de manejo fitossanitário”, explica Tatiani Janegitz, gerente de Desenvolvimento de Mercado – Agronegócio da Loccus, empresa especializada em soluções para biotecnologia e diagnóstico molecular.
Segundo o 10º Levantamento da Safra de Grãos 2025/26 da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), divulgado em julho de 2026, a produção brasileira de grãos deve alcançar 360,1 milhões de toneladas nesta temporada. A soja responde por aproximadamente metade desse volume, com estimativa de 180,6 milhões de toneladas, 5,3% acima da safra anterior.
Na preparação para o plantio, germinação e vigor estão entre os indicadores tradicionalmente avaliados nas sementes. Outra importante aplicação é a análise do microbioma do solo por meio do sequenciamento de DNA de nova geração (NGS). A tecnologia permite mapear a diversidade e a composição das comunidades microbianas presentes na área, identificando microrganismos benéficos e potenciais agentes causadores de doenças.
Esse diagnóstico possibilita avaliar o equilíbrio biológico do solo, identificar áreas com baixa biodiversidade microbiana e orientar o uso de bioinsumos e estratégias de manejo regenerativo.
“É uma abordagem de precisão: primeiro se busca compreender o que está presente no solo e, com base nesse diagnóstico, direcionar melhor o manejo. A análise molecular não substitui a avaliação agronômica, mas acrescenta informações objetivas para apoiar as decisões antes do plantio”, afirma Tatiani.
Produção de bioinsumos acompanha o calendário da safra
A proximidade da semeadura também movimenta as indústrias de bioinsumos. Como muitos desses produtos são formulados com microrganismos vivos, a produção precisa ser planejada para que eles cheguem ao produtor com viabilidade e eficiência adequadas.
O mercado brasileiro de bioinsumos movimentou mais de R$ 6,2 bilhões em 2025, alta de 15% em relação ao ano anterior, segundo dados divulgados em 2026 pela CropLife Brasil. A área tratada com produtos biológicos chegou a 194 milhões de hectares, um crescimento de 28%. A soja é a principal cultura desse mercado: levantamento referente à safra 2024/25 mostra que a oleaginosa concentrou 62% do uso de bioinsumos no país, enquanto a taxa média de adoção por área plantada avançou de 23% para 26%.
A crescente adoção de bioinsumos no agronegócio reforça a importância de processos rigorosos de controle de qualidade ao longo da produção. Entre os principais parâmetros monitorados estão a identidade, a pureza e a concentração dos microrganismos de interesse, além da detecção de possíveis contaminantes. Nesse contexto, a tecnologia de qPCR se destaca como uma ferramenta estratégica, permitindo a quantificação precisa dos microrganismos-alvo e a identificação precoce de contaminações. Com resultados obtidos em um intervalo de tempo significativamente menor em comparação aos métodos convencionais, a técnica proporciona maior confiabilidade analítica, otimiza os processos produtivos e contribui para a liberação mais ágil dos lotes, garantindo segurança e qualidade ao produto final.
“A eficácia dos bioinsumos está diretamente ligada à viabilidade dos microrganismos que compõem sua formulação. As ferramentas moleculares ampliam a capacidade de monitoramento dos fabricantes, oferecendo maior precisão, rastreabilidade e segurança na verificação da identidade e da integridade biológica dos produtos”, destaca a especialista.
Do diagnóstico do solo ao tratamento das sementes
Na prática, o planejamento pode começar pela coleta de amostras do solo e pela investigação dos patógenos relevantes para a cultura. Os resultados devem ser interpretados em conjunto com o histórico da área, as características da lavoura e a orientação de profissionais habilitados.
A partir dessas informações, é possível definir um tratamento de sementes mais direcionado, com fungicidas, inoculantes ou outros bioinsumos compatíveis com as necessidades identificadas. Registro, validade, procedência e condições de conservação dos produtos também devem ser observados.
Para Tatiani, a combinação entre diagnóstico e manejo contribui para decisões mais precisas em uma etapa estratégica da safra. “A proposta não é realizar uma análise molecular da semente antes do plantio, mas compreender melhor o ambiente em que ela será inserida. Quanto mais informações o produtor tiver sobre o solo, maior será sua capacidade de direcionar o tratamento e reduzir riscos antes da implantação da lavoura”, conclui




