Uma reportagem publicada pelo jornal britânico The Guardian voltou a colocar em evidência a transposição do Rio São Francisco, considerada uma das maiores obras de infraestrutura hídrica do Brasil. A publicação relata que, apesar de o projeto garantir segurança no abastecimento de água para milhões de pessoas no Nordeste, parte das comunidades diretamente afetadas pela construção dos canais ainda enfrenta dificuldades para acessar esse recurso. Uma cobrança ao Governo Federal.
A construção do projeto de desvio do rio, orçado US$ 2,8 bilhões, que começou em 2007, exigiu a desapropriação de cerca de 2.000 propriedades para dar lugar à infraestrutura necessária para transportar água suficiente para abastecer rios e reservatórios em quatro estados: dois canais principais, cada um com mais de 209 quilômetros de extensão, centenas de quilômetros de canais secundários, além de túneis, aquedutos, estações de bombeamento e subestações de energia elétrica.
A reportagem tem como personagem principal Maria de Fátima Ferreira da Silva, moradora da zona rural de Sertânia (PE). Desalojada durante as obras do canal há quase duas décadas, ela vive atualmente a poucos quilômetros de um reservatório abastecido pela transposição, mas sem acesso à água encanada. Segundo o relato ao jornal, a agricultora depende da água comprada para abastecer sua propriedade e seus animais.
O The Guardian explica que a transposição leva água do Rio São Francisco para rios temporários do semiárido nordestino e, de acordo com o governo brasileiro, beneficia cerca de 12 milhões de pessoas, reforçando a segurança hídrica em uma região historicamente afetada por longos períodos de estiagem.
No entanto, a reportagem destaca que, nove anos após a chegada das águas ao município de Monteiro (PB), ainda existem questionamentos sobre a distribuição dos benefícios da obra. Entre as críticas ouvidas pelo jornal está a da procuradora regional dos Direitos do Cidadão na Paraíba, Janaína Andrade, que afirma que o empreendimento trouxe impactos significativos para a bacia doadora do São Francisco e resultados limitados para parte da população do sertão.
O jornal também ressalta que a crise climática tende a agravar os períodos de seca na região, aumentando a importância de políticas públicas voltadas à segurança hídrica e ao acesso à água para as comunidades rurais mais vulneráveis. Confira a reportagem na íntegra no link a seguir:
Ainda segundo o jornal inglês, o Ministério do Desenvolvimento e da Integração Regional recusou-se a conceder uma entrevista e não respondeu diretamente às perguntas. Limitou-se a afirmar que sua responsabilidade se restringia ao transporte da água e que a distribuição aos cidadãos e a realocação das comunidades eram “responsabilidade exclusiva das operadoras e das administrações estaduais e municipais”.
Foto: Print do site The Guardian




